A chegada da inteligência artificial generativa não foi apenas mais uma vaga tecnológica, foi como ligar eletricidade a uma fábrica que ainda trabalhava à manivela. De repente, uma equipa de três ou quatro pessoas, com uma subscrição de 20 euros por mês, consegue desenhar processos de ponta a ponta, criar agentes que automatizam tarefas complexas, ler e interpretar documentação técnica de toda a empresa em segundos. Não estou a falar de teoria, estou a falar de operações que vejo no terreno, em empresas pequenas que não têm departamentos de inovação, mas têm algo muito mais valioso: liberdade para experimentar.
Agora comparemos isto com a realidade típica de muitas grandes organizações. Um colaborador tem uma ideia simples: quer usar uma ferramenta de IA para automatizar um processo que hoje é manual, ou para criar um assistente interno que responda a dúvidas sobre produtos, contratos ou procedimentos. Em teoria, seria uma poupança brutal de tempo e dinheiro, mas na prática, o que acontece é que esse colaborador tem de pedir autorização ao seu diretor, que por sua vez fala com o diretor do diretor, que pergunta às compras, que enviam um formulário para o comité de cibersegurança, que aguardam um parecer jurídico, que pedem mais informação ao fornecedor. Cada email acrescenta mais uma semana. Cada reunião acrescenta mais uma camada de incerteza. Quando, e se, a aprovação chega, a oportunidade já passou. O concorrente mais rápido já testou três ferramentas, descartou duas, afinou a terceira e está a colher resultados. Tudo isto enquanto a grande empresa ainda está a preencher o excel com o levantamento de requisitos. É aqui que o tamanho deixa de ser vantagem e passa a ser um peso amarrado ao tornozelo.
Também há um ponto que quase ninguém gosta de dizer em voz alta — hoje, com uma boa ferramenta de IA, um gestor consegue produzir em horas o equivalente a vários dias de trabalho humano. Não há nenhum profissional no mercado disposto a fazer este volume de trabalho, com esta qualidade e nesta velocidade. A IA não substitui a pessoa, mas força-nos a admitir que o fator produtivo deixou de ser apenas o número de cabeças. Passou a ser a combinação entre pessoas e máquinas e quem desvalorizar isto está a jogar com menos peças.
O problema mais grave, contudo, não é tecnológico, é cultural. Nas empresas lentas, cada pedido para experimentar algo novo é uma luta. O colaborador sabe que, para propor uma ideia, vai ter de preparar apresentações, tentar influenciar as pessoas certas, responder a perguntas de quem não tem tempo para estudar o tema, ouvir frases como “sempre fizemos assim” ou “não podemos abrir exceções”. Ao fim de algum tempo, deixa de propor. Aprende que é mais seguro não mexer. Essas organizações tornam-se estufas ao contrário. Em vez de protegerem as ideias para crescerem, matam-nas ainda em semente.
Gosto de olhar para o que se está a passar nos mercados financeiros como um aviso para os gestores que ainda acreditam que o passado se vai repetir. Nos últimos 3 anos, assistimos a algo inédito: o principal índice bolsista norte-americano, o S&P 500, continua a subir de forma muito significativa, impulsionado em grande parte por empresas de tecnologia e de IA, enquanto o número de ofertas de emprego tradicionais tem vindo a cair de forma relevante. Durante décadas, quando a economia crescia e a bolsa subia, criavam-se mais empregos. Hoje, essa correlação que parecia quase natural partiu-se. O que isto nos diz é que a criação de valor já não está alinhada com a lógica antiga de pôr mais pessoas a fazer mais trabalho. Está a alinhar-se com a capacidade de usar tecnologia avançada, como a inteligência artificial, para fazer muito mais com equipas mais enxutas. A economia está a premiar quem se adapta rápido, não quem tem mais metros quadrados de escritório ou organogramas mais complexos. A divergência entre o S&P 500 e as ofertas de emprego é um espelho do que se passa dentro das empresas. O tamanho já não garante segurança. A estabilidade de hoje pode ser a rigidez de amanhã.
Por isso, quando me perguntam se a grande ameaça é a IA roubar empregos, respondo de outra forma. A maior ameaça não é a inteligência artificial. A maior ameaça é a lentidão artificial. São as regras internas, a burocracia e o medo de arriscar que vão tirar relevância às empresas, muito antes de qualquer algoritmo. As organizações que ganham não serão as maiores nem as mais antigas. Serão as que conseguem dizer sim à experimentação em semanas, não em anos. No século XXI, não são os grandes que comem os pequenos. São os rápidos que engolem os lentos e é a inteligência artificial quem está a servir o jantar.
Fábio Gomes, Marketing Manager & Digital Transformation Strategist do FI Group Portugal
Artigo publicado no jornal Observador






